Sentado numa estação de metrô, um homem escuta um bizarro ruído. Uma estranha alegoria sendo cantada a infestar todos aqueles suscetíveis a tais monstruosidades. Um balbuciar a exaltar os atos mais imorais. Festejando a vida de indivíduos que acordam cedo de manhãs sem sonhos, que se esforçam durante o dia naquilo que pouco lhes é relevante e que dormem tarde sonos desesperados. Após tal horrível experiência, tal terrível ode ao horror, é deixado enjoado e com vontade de vomitar, sai cambaleando e cai num canto. Um velho aparece e lhe pergunta o que houve, ele lhe responde com outra pergunta.
- O que as pessoas querem? - pergunta o homem ao velho, levantando-se.
- Dinheiro - responde o velho.
- Se arrancarmos todo o extenso emaranhado de mentiras que escondem perversamente a verdade, tudo que essas pessoas foram subjugadas a ser pelas correntes que as prendem, a resposta não seria outra, uma bem mais simples. Não querem elas serem felizes?
- Dinheiro traz felicidade!
- Ser colocado de manhã num carro de açougue, amontoado entre milhares de outras almas torturadas e transportado para as regiões da distorção, onde tudo aquilo que é mais inútil, é festejado como o mais necessário. Repetindo sem parar a mesma coisa, servindo àqueles que não precisam ser servidos, obedecendo piadas que se fazem de ordem, tudo em troca de uma abstração que não pode comprar nem o amor, nem a paz e nem a sabedoria. Você não vê algo errado nisso?
- Sim, o desemprego!
- Ah... é claro, porque ser um escravo é obviamente uma parte essencial da vida. Mas não se preocupe, se tudo que é inútil já está sendo feito, sempre se pode pensar em mais alguma coisa que não precisa ser feita para fazer. O que você ganha com isso?
- Bebida!
- Sim, o melhor escravo é aquele que acredita ser livre, mas essa falsa liberdade não é uma mentira por si suficiente. Você precisa no fim do dia, do seu bar, da sua igreja, do seu deus caixa a transmitir imagens e dar ordens, e do seu deus esférico, que ao ser chutado, dá a divisão e a falsa vitória. Esse é realmente o essencial?
- O essencial é a sobrevivência e isso é o que se tem!
- Que sobrevivência? A das baratas? A sobrevivência já foi atingida há mais de cem anos. O que você tem agora é uma produção quase que noventa porcento inútil. Vejamos aquelas inutilidades de quatro rodas que a nenhum lugar levam. Só o amontoado de esforço e de industrias necessário a construí-las é assustador! E, por acaso, você precisa deste sistema relativo e falho de transporte? Não. Como também não precisa das milhares de outras besteiras descartáveis que se espalham para todos os lados. Enquanto isso, os dez porcento realmente necessários não requerem quase nenhum esforço e você só não os vê sendo efetivos, porque em maioria são desviados para sustentar colônias de obesos, que são tão miseráveis quanto as de mortos de fome.
- Então, se tudo é tão diabólico, porque as pessoas não se revoltam?
- A maioria, não como ela é, mas como aqueles que a compõem poderiam ser, caso não fossem por ela subjugados, tem em cada um de seus membros a capacidade da genialidade. Tendo bilhões de possíveis gênios! Possíveis gênios que se chegassem a seus ápices de conhecimento nunca aceitariam a grande mentira que sempre está a devorá-los. Mas nada pode realmente mudar enquanto todos eles pensarem como um, o um que é produto da maioria, já que assim esse um sempre pensará para nenhum e esses todos sempre se manterão numa enganação. Só quando não haverem mais todos a subjugar e cada um separadamente pensar como um, o um produto de si próprio, esse um pensará para todos e esses todos habitarão a verdade. Pois para esse um, fruto de um pensamento, é melhor que todos sejam também um, o um que desfruta de tudo que este é. Assim, deve-se ser não um a partir de todos, mas um a partir de um que é igual a todos. Porém isso é uma ilusão, que nunca vai acontecer! Pelo menos, não na escala necessária para fazer alguma diferença. Porque a maioria sempre se encontra a esmagar violentamente cada um de seus membros, a impedi-los a todo custo de encontrar a liberdade, subjugando-os a serem eternamente meros personagens de ficção. Uma ficção produzida por uma máquina que já está muito bem estabelecida. Uma máquina que só existe com o único objetivo de continuar existindo e que para isso prende cada um de seus personagens em uma complexa trama, fazendo-os acreditarem serem diferentes de seus iguais das mais ridículas formas, como por diferentes quantidades de possessões desnecessárias, ou por diferentes inutilidades praticadas. Por fim, chegando a resposta da pergunta. Por que não se revoltam? Porque são personagens de ficção. E ficção só se revolta quando isso já está inscrito em seu roteiro. Um roteiro escrito pela máquina que obviamente já prescreve o fracasso. Pois a revolta roteirizada sempre se faz contra outros na mesma condição de personagens de ficção e nunca contra a verdadeira culpada, a máquina que a tudo escreve. Concluindo-se que todos aqueles que realmente pensam, que são um a partir de um, só podem ser acidentais. Porque num mundo dominado por uma caixa que dá ordens e por um sistema educacional que só serve para produzir trabalhadores ou pessoas com alergia ao saber, o pensamento próprio não é algo natural. Enfim, são esses acidentes os únicos que podem realmente se revoltar, não o fazendo por entenderem que apesar da máquina ser em si fraca, a maioria por ela subjugada não o é e sempre está muito bem preparada a apedrejar, empalar e incinerar todos aqueles que sequer se atreverem a ameaçar a sua criadora.
- Logo nessa lógica ninguém pode fazer nada, só cair em um canto enjoado?
- Sim, ou se isolar completamente numa pequena caixa e não pensar no assunto!
- Ótimo! Eu vou embora agora, beber um pouco.
Copyright @ Daniel Matos, 2005


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